Brasileira
Saiba um pouco mais sobre Maria Clara
Eu, Maria Clara Lopes Machado , nasci em Amambai, região de fronteira de Mato Grosso do Sul, resido em Campo Grande, MS, há uns 20 anos aproximadamente, cidade que adotei como minha de coração. Sou mãe de dois filhos: Victor Hugo, com 17 anos, e Mariana, com 14.
Tenho lembranças de infância que provavelmente influenciaram o desenrolar da minha vida e os diferentes comportamentos do homem no mundo. Sou apaixonada pela natureza humana e acredito que como um artista que tem o dom das artes (pintura, desenho, música) na psicologia também tem que se ter o dom, além de muito estudo e muita responsabilidade com a vida do outro que nos escolhe para ser seu psicoterapeuta. Sempre digo que nós é que somos escolhidos para que esta pessoa coloque os sentimentos mais profundos de sua psique e de sua alma.
Toda vez que dirijo um workshop, sinto um amor imenso pelas pessoas que estão ali participando, dispostas a se olharem e olhar para o outro, aprendendo a admirar as semelhanças e respeitar as diferenças.
Agora, vou voltar um pouco na minha infância. Nasci em um hotel e vivi lá até a minha adolescência, quando, por opção, pedi a minha mãe e minha avó para me mudar. Mudei de Amambai para Campo Grande, mas continuava a passar as férias e a trabalhar no hotel que fazia parte da minha história. As lembranças mais fortes de minha infância neste hotel são dos funcionários e da preocupação que eu tinha com as histórias sofridas das pessoas que lá trabalhavam.
Lembro-me de uma moça que teve uma filha e não cuidava. Quando chegava da escola, eu encontrava a bebezinha suja e abandonada em um carrinho no quintal. Indignava-me com a mãe, chamava-lhe a atenção e era incrível porque, apesar de eu ser uma criança, ela escutava. No outro dia fazia tudo igual novamente. Eu cuidava do bebê, dava banho, comprava roupa, brincava e colocava para dormir até que um dia um cozinheiro nosso adotou a menina e mudou de cidade. Me senti feliz e aliviada por saber que agora aquela criança teria amor e uma família. Nunca mais tive notícias desta menina.
Havia outras funcionárias que, quando grávidas apertavam suas barrigas com faixas para esconderem a gestação já quase evidente. Eu questionava a atitude delas. Uma abortou, outra teve uma criança prematura que sobreviveu algumas horas, outra nasceu com deformidade nas pernas, e o mais incrível é que a criança foi registrada com o nome de Maria Clara. A mãe da criança perguntou se eu ficaria brava por ela dar o meu nome ao seu bebê. Eu respondi que ficaria muito feliz e de certa forma homenageada.
Lembro-me também do Quito, um anão de espírito alegre que cuidava do hotel, limpava os quartos, tomava muito tereré e me ajudava a cuidar dos meus cachorros, que sempre eram muitos. Ele os banhava e ajudava nos partos das minhas cachorrinhas. Uma vez me machuquei e ele me levou no colo para a farmácia. Lembro da cena: ele nervoso, meu joelho sangrando, eu chorando, maior que ele e ainda sendo carregada no colo. Até hoje não sei como ele conseguiu me carregar.
Lembro também de uma cozinheira, a Chiquita, branca, gorda e muito afetiva. Me ensinou a cozinhar arroz-doce e fazíamos novena à tarde na Igreja. Também lembro da Tetena, uma outra pessoa muito afetiva.
Assim, vários personagens passaram durante a minha vida, na infância e adolescência. Relembrar estas pessoas para escrever algo sobre mim me emociona e começo a me perguntar qual a relação que quero fazer para que entendam a origem dos meus trabalhos. A aliança que estabeleci com essas pessoas da minha infância me fez acreditar no amor e nas trocas que o amor permite, nas mudanças que sofremos e nas transformações que ocorrem.
Estou no meu 20° workshop. Todos são frutos de minha imaginação, assim como a montagem deste site, que também tem me dado muita alegria e emoção. Sei que agora o meu trabalho está criando asas e podendo chegar a pessoas em diversos lugares do mundo e que em algum momento poderemos nos encontrar através de um workshop. Talvez nunca nos encontremos. Mas quando alguém acessar este site e obtiver uma identificação ou percepção positiva de amor para si, a semente estará plantada, e de alguma forma poderá germinar para a construção do bem para si e para um mundo melhor. É nisso que sempre acreditei e acredito, sou uma idealista por natureza. Sempre digo para as pessoas que me conhecem que quero ficar velhinha atendendo no consultório e trabalhando com grupos.
Um pouco sobre minha adolescência em Campo Grande, quando participava de grupos de jovens e estudava no Colégio Dom Bosco e Auxiliadora. Comecei a trabalhar com grupos de jovens e era interessante porque, apesar de também ser uma jovem, havia muitos deles que me procuravam para conversar. Me recordo que às vezes essa situação me intrigava e aí eu acredito que era pela consciência que eu tenho de mim. Sempre acreditei que era por ter vindo de uma família nada convencional: eu, minha mãe, minha avó e meu irmão morando em um hotel. Essa situação me fez acreditar desde cedo que precisava cuidar de mim e ser responsável pelas minhas atitudes. Cresci muito responsável por mim mesma.
Ao entrar na faculdade não tive dúvidas: era Psicologia, nem uma outra profissão me interessava. Acredito que fiz a escolha certa porque sou feliz com o que faço.
Na época de estágio de faculdade, trabalhei com pacientes renais crônicos, poli-traumatizados e pronto-socorro. Eles me ensinaram a força e o significado da vida, embora fossem pacientes terminais. A intensidade de sua fé e de sua esperança fazia com que acreditassem que de alguma forma iriam ficar curados, sofri muito, mas aprendi bastante também.
Me formei em psicologia com 24 anos e fui trabalhar com AIDS. Eu dava os diagnósticos de HIV+, trabalhando com os pacientes em todas as fases: negação, revolta e aceitação. Os acompanhava por um, dois, três, quatro anos, até quando entravam em estado terminal. Ia ao isolamento diariamente para atendê-los, ouvindo-os e mostrando-lhes que ali estava tão impotente quanto eles frente àquela doença tão cruel, que deixa uma pessoa jovem, cheia de vida, em um corpo físico totalmente deteriorado, com uma vontade imensa de retornar a vida. Permaneci por dez anos trabalhando com AIDS. Criei uma Instituição que se chamava Casa de Assistência aos Portadores e Doentes de AIDS (CAD), com muito amor. Mas as minhas forças foram ficando cada vez mais fracas, pois naquela época para a AIDS não tinha a qualidade de sobrevida que se tem hoje. Esses processos contínuos de mortes e despedidas começaram a me deprimir. Muitas vezes ia até o funeral, tornei-me uma pessoa muito chorona, fazia muitas palestras e chorava publicamente. Aí, resolvi dar um tempo para mim e passei a minha instituição para um padre acreditando que naquele momento seria a pessoa mais apropriada.
Agradeço a Deus e a todas as pessoas que atendi com AIDS e que já passaram para um outro plano. A minha vida espiritual e pessoal se modificou muito com esta convivência, tão bonita e tão sofrida que experimentei. Depois que parei de trabalhar com AIDS, fui para São Paulo fazer um curso de terapia sexual. Necessitava ter contato maior com a vida, ansiava por resultados finais diferentes daqueles obtidos com pacientes terminais que sempre culminavam com a morte humana. Fui estudar a sexualidade humana e comecei a trabalhar com disfunção sexual masculina e feminina. Colhi ótimos resultados em consultório: pessoas jovens chegavam deprimidas, ansiosas, por estarem impotentes há 10, 20 anos e que começavam a ter potência novamente. Eu comecei a encontrar outro significado na minha profissão, pois a vida dessas pessoas começava a se transformar, indivíduos que viviam sós e agora estavam casando, tendo filhos e sendo gratos pelo tratamento. Obtive um novo ânimo, tinha necessidade de resultados mais práticos para diminuir a minha dor.
Paralelamente, iniciei os Workshops Tematizados. O primeiro, com o tema amor, me veio de uma inspiração do meu dia-a-dia de consultório. Percebi que as pessoas estavam sedentas de amar. Aí pensei: vou fazer um workshop sobre o amor para identificar quais são os sentimentos de amor que existem dentro das pessoas. Amor homem-mulher, amor aos filhos, amor a Deus, amor à natureza, amor ao amigo, ao trabalho, aos animais, enfim, queria pensar e refletir junto com o grupo os fluxos de amor que nos ultrapassam. Assim, surgiu o primeiro trabalho, e hoje já estamos no décimo. Cada workshop nasce da inspiração do trabalho anterior ou do próprio momento em que estamos vivendo, como por exemplo o de “Guerra e Paz” que trata o medo e a insegurança de guerra e violência urbana que estamos vivendo hoje e a reflexão sobre que tipo de doença social estamos desenvolvendo, de como podemos em grupo refletir e encontrar saídas para um mundo melhor.
Para encerrar, convido você leitor a conhecer ou participar de um dos meus Workshops Tematizados.
“Todos os criadores estão a sós até que seu amor pela criação forme um mundo ao seu redor.” (Moreno)
Maria Clara Lopes Machado